Enfrentando a Hidra de Lerna: o desafio da antifragilidade

O momento que estamos vivendo nos leva a refletir sobre muitas coisas e, diante de algumas reflexões ou perspectivas, somos tomados pelo medo que nos paralisa e nos impede de seguir adiante com muitos de nossos projetos.

A música “Relicário”, de Nando Reis, nos diz que “o mundo está ao contrário e ninguém reparou”, o que faz muito sentido ao observarmos um momento tão caótico como o que estamos vivendo ante as agruras da pandemia.

Talvez nunca tenhamos vivido tantas incertezas como as de agora e isso nos torna inseguros, medrosos para avançar e buscar saídas para o caos que nos assola.

O que podemos apontar, como muitos dizem, é que estamos no momento de nos reinventar e encontrar caminhos que nos permitam sair deste mundo deslocado, ao contrário, e que não parece nos apontar melhores horizontes em virtude do caos.

Na mitologia grega, Caos é o mais antigo dos deuses, a personificação do vazio primordial, anterior à criação, quando a ordem ainda não havia sido imposta. Tomando sua etimologia, caos é o insondável, o vazio e, ao mesmo tempo, aquele que está pronto para se abrir.

Então, como primeira reflexão, peço que pensemos no processo da criação, independentemente de religião, como um momento em que algo se fez em oposição ao caos, ao vazio, a desordem.

Quero com isso propor que pensemos que, se estamos vivendo um momento de caos, precisamos entender que é dele que teremos oportunidades de criação, de aprender com este momento de vazio e incertezas.

Mas como poderemos reagir diante do caos?

Segundo o escritor Nassim Taleb, economista e professor emérito na Universidade de Nova York, diante do caos, temos três formas de atuar, responder ou se desenvolver:

  • O Frágil: é aquele que, diante do caos, das incertezas, sofre e pode quebrar. Não arrisca e prefere se manter na estabilidade.
  • O Resiliente: é aquele que “aguenta o tranco” do caos e das incertezas, adaptando-se à pressão para voltar ao seu estado natural ao término da situação adversa.
  • O Antifrágil: é aquele que abraça o caos, que procura a instabilidade e, diante das adversidades, se torna melhor, aprendendo com seus erros e se aprimorando.

Em seu livro “Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o caos”, Taleb faz uso da mitologia grega para nos apresentar a ideia de antifragilidade, habilidade que necessitamos desenvolver ante o momento vivido.

A figura que ele utiliza para nos apresentar sua ideia é a da Hidra, ser mitológico que vivia no lago de Lerna, perto de Argos, com três cabeças. Cada vez que uma delas era cortada, duas outras cresciam em seu lugar. Diante do desafio, ela apreciava o dano e se beneficia com isso.

Contam as lendas que Hércules enfrentou a Hidra de Lerna ao cumprir os seus famosos Doze Trabalhos. Diante da hidra, Hércules não se amedrontou e com sua espada cortou uma das cabeças do monstro. Qual não foi a sua surpresa quando duas outras surgiram no pescoço cortado. Ao repetir o ato, novamente viu surgir mais duas cabeças.

Vendo que para derrotar a Hidra precisaria mudar de tática, Hércules pediu ajuda a seu primo Iolao, que incendiou um bosque vizinho e com esse fogo queimou cada ferida onde Hércules decepava uma cabeça, evitando assim que outras cabeças surgissem, finalmente derrotando a Hidra.

Vejam que o próprio Hércules, acostumado a usar seus músculos para vencer, teve que, diante do novo desafio, do perigo que passou quando a fera se enroscou em seu corpo, buscar uma nova forma de vencer. Diante do desafio, Hércules buscou na antifragilidade a oportunidade para aprender e com isso vencer.

Neste momento de mundo, de caos, incertezas, monstros surgem em nossas vidas pessoais e profissionais e, como Hércules, precisamos enfrentar a Hidra de Lerna de forma inteligente, diferente das formas como estávamos acostumados a vencer desafios.

Tornar-se antifrágil é, antes de tudo, olhar para suas próprias habilidades (assim como Hércules olhou para sua força) e, a partir disso, buscar caminhos, brechas e oportunidades para vencer desenvolvendo novas habilidades.

Ao desenvolvermos a antifragilidade, diante do caos e das dificuldades, aprenderemos que ainda temos muito para aprender e se aprimorar se quisermos, realmente, vencer os desafios de um mundo que “está ao contrário e ninguém reparou”.